sábado, 23 de julho de 2011

Como Devo Crer na Trindade?

Uma das atividades mais delicadas da teologia cristã é tentar explicar de forma clara e objetiva o conceito ortodoxo da divindade. Ainda nos primeiros séculos surgiram inúmeras controvérsias que ameaçaram a crença no Deus trino. A primeira grande afronta à doutrina da Trindade foi o que conhecemos hoje como Unicismo, levado à emergência pelo teólogo Sabélio em cerca de 215  a.D.
O Unicismo consiste na crença de que Deus se aprensentou na história de três formas distintas, e não em três pessoas. Sendo assim, acredita-se que Deus Pai encarnou-se no ventre de Maria, sofreu na cruz sendo Pai e o mesmo Pai vive hoje como Espírito Santo na vida dos crentes e da Igreja. O problema desta doutrina está em negar (mesmo inconcientemente) que Deus enviou Seu Filho Unigênito, e que este por sua vez enviou o Espírito Santo Consolador. O problema está também em negar a submissão do ministério humano de Jesus em relação ao Pai e, conseqüentemente negar que Jesus se fez como um de nós, pois teria sofrido como Deus e não como homem, enfraquecendo assim o valor do sacrifício vicário na cruz do Calvário.
Outra grande afronta à doutrina da Trindade foi a controvérisa do bispo Ário, no quarto século, que ficou conhecida como Unitarismo. 
O Unitarismo: Ário pregava que a única essência verdadeira de Deus é o Pai. Ele afirmava que houve um tempo em que Jesus nunca existiu e que seria, portanto, uma criatura de Deus Pai, não sendo merecedor de adoração. Esta doutrina esteve ausente dos holofotes do cenário cristão durante muitos séculos, ganhando maior vigor nos últimos tempos através de Charles Taze Russell, idealizador da organização das Testemunhas de Jeová.
A Doutrina da Trindade é mal compreendida e, por incrível que pareça, mal explicada pela maioria dos cristãos trinitarianos. Existe uma dificuldade muito grande, mesmo por parte dos que crêem neste ensinamento, de compreender como pode um único Deus co-existir em três pessoas distintas. Meu  interesse neste artigo é esclarecer de forma breve e objetiva quais são as principais dificuldades da doutrina da Trindade e como superá-las à luz da Bíblia.


1. Deus é Um. Não podemos negar a unidade de Deus. A doutrina da Trindade consiste na fé em um único Deus eterno e capaz de ser, em sua inteireza, composto por três pessoas co-iguais: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
2. É necessário distiguir Trindade de triteísmo. O Senhor diz claramente que não admite que tenhamos outros deuses diante dele (Ex 20:3). Ao afirmar que cremos que as três pessoas da Trindade são plenamente Deus, devemos ter o cuidado de não dividí-las, ou fazer de cada uma delas um indivíduo. A palavra trindade deriva de trino (que consiste de três) e não devemos confundir trino com triplo, pois o primeiro é um singular composto por três elementos, enquanto o segundo é simplesmente um plural de três singulares. Se atribuirmos diferentes autoridades e dignidades a cada uma das pessoas da trindade, ou fizermos distinção de seus poderes afirmando que um é Todo-Poderoso e os outros dois não, estaremos crendo sim em três deuses diferentes, isto constituiria uma tríade, e não uma trindade.
A impossibilidade de um indivíduo ser ao mesmo tempo três pessoas dificulta muito a compreensão desta doutrina, justamente pelo fato de a palavra indivíduo significar indivisível por dois. Esta impossibilidade, no entanto, não ameaça a consistência da doutrina da Trindade, pois estar em todos os lugares ao mesmo tempo, saber todas as coisas sem nenhuma restrição e produzir vida também são coisas impossíveis e incompreensíveis, mas universalmente aceitas como atributos verdadeiros do Deus verdadeiro, que é capaz de tudo isto e ainda ser um único Deus composto por três pessoas.
3. O Filho Gerado. O Verbo de Deus estava presente na criação como Criador. Ele estava com Deus no princípio e ali o Verbo era Deus (Jo 1:1). A Bíblia diz que todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. As promessas messiânicas afirmavam que nasceria de uma virgem um menino chamado Deus Forte e Pai Eterno (Is 7:14; 9:6). Quando as promessas estavam por se cumprir, o anjo Gabriel visitou Maria virgem, e disse estas palavras: "Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus." O evangelho de João nos diz que no princípio era o Verbo (não que no princípio era o Filho), e que este Verbo se fez carne e habitou entre nós. Ele já era Deus no princípio e se esvaziou de toda a sua glória, fazendo-se semelhante aos homens (Fp 2:7). Não é correto acreditar que num determinado momento o Verbo não existisse, sendo a partir daí trazido à existência pelo Pai que o gerou. O Filho foi gerado no ventre de Maria para nascer como um de nós, mas antes da encarnação ele já era o Verbo Eterno de Deus, co-existente e co-igual ao Pai. Também não é correto afirmar que o Filho é um Deus menor. Uma interpretação equivocada das palavras de Jesus em João 10:29, 13:16 e 14:28 leva alguns a crerem que Jesus ocupa ainda hoje uma posição submissa ao Pai. Nestes textos Jesus diz: "o Pai é maior do que eu". Mas lendo paralelamente Lc 22:27 percebemos que Jesus está dizendo a seus discípulos que entre eles, Jesus era o menor. A correta exegese destes textos conclui que Jesus ensina a preferirmos em honra uns aos outros, em vez de nossa própria honra, pois ele como homem deu maior honra a seus discípulos, inclusive lhes lavando os pés, e ainda como homem afirmava que o Pai é maior que ele.
4. O Primeiro e o Último. Tanto Deus Pai quanto o Deus Filho são citados na Bíblia como sendo o primeiro e o último. Esta expressão afirma que nunca houve ninguém antes dele e ninguém viverá num tempo posterior ao dele. Isaías 44:6 e 48:12 atribuem a Yahweh (O SENHOR) o título de Primeiro e Último, enquanto Apocalipse 1:7, 1:11, 2:8 e 22:13 chamam ao Filho de Primeiro e Último. Estamos sim, falando de um único Deus, mas de duas pessoas distintas.
5. A Personalidade do Espírito Santo. O Espírito Santo não é apenas a força de Deus agindo, mas o próprio Deus agindo pessoalmente na terceira pessoa da Trindade. Os termos "primeira", "segunda" e "terceira" pessoa não denotam hierarquia ou primazia entre as pessoas da Trindade, mas a ordem na qual Deus se revelou aos homens cronologicamente. A primeira pessoa da Trindade se revelou no Antigo Testamento como Yahweh Tsabaot (Senhor dos Exércitos, ou Jeová dos Exércitos), varão de guerra, Criador e Dominador de toda a terra, um Deus que tinha o povo de  Israel em predileção em detrimento das outras nações. No Novo Testamento revela-se a segunda pessoa da Trindade, quando temos o cumprimento da promessa de Is 9:6 que predisse o nascimento de um menino que seria chamado Deus Forte e Pai da Eternidade. A Palavra de Deus fez-se carne revelando aos homens que Deus reconciliaria consigo mesmo todas as nações da terra através de um sacrifício perfeito e perpétuo. Quando Jesus está prestes a seguir o caminho do Calvário, prometeu que iria para o Pai, mas enviaria o Espírito Santo Consolador, e que este daria testemunho de Cristo e ajudaria os crentes a viver de acordo com os propósitos do Evangelho. O Espírito Santo é Deus agindo de forma pessoal, e não uma força agindo a serviço de Deus. A personalidade do Espírito Santo está evidenciada nos atributos de caráter pessoal que a Bíblia confessa a seu respeito.
O Espírito Santo se entristece (Ef 4:30), ensina (Lc 12:12), revela coisas ocultas (Lc 2:26), testemunha acerca de Cristo e das palavras de Deus (Hb 10:15, I Jo 5:6-8, Rm 8:16, Jo 15:26 etc.), faz o crente se lembrar dos ensinamentos de Jesus (Jo 14:26), contende com o homem e procura convencê-lo de seus erros (Gn 6:3).
6. As relações interpessoais de Deus na Trindade. Na criação, disse Deus: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança" (Gn 1:26). No batismo no rio Jordão, Jesus estava nas águas, o céu se abriu, o Pai falou do alto com os homens na terra, e o Espírito Santo desceu em forma de uma pomba sobre Jesus (Mt 3:17). Estêvão viu os céus abertos e Jesus ao lado do Pai (At 7:55). João viu na sala do trono um Ancião de Dias e um Cordeiro que havia sido morto e reviveu e que tem o Espírito séptuplo que havia sido enviado por toda a terra (Ap 5:6). Além destas citações onde aparecem juntas as pessoas da Trindade distintas, temos os exemplos de Jesus orando ao Pai, dizendo que o Espírito Santo era sobre ele, e que enviaria o Espírito Santo para ser o ajudador da Igreja.


Biblicamente, não é possível crer que Deus haja apenas se manifestado de três formas distintas nem que haja mais de um Deus na divindade, mas é certo e bíblico que o nosso Deus é Um,  eterno e subsistente em três pessoas co-iguais, cuja essência e dignidade não podem ser divididas. Pai, Filho e Espírito Santo são as três pessoas do único Deus Verdadeiro.


Marcelo Reis.


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Unicismo

3 comentários:

  1. É irmão Bruno... Existem muitas falsas doutrinas a respeito da divindade, por isto mesmo precisamos nos apegar ao estudo sistemático das Escrituras.

    Que Deus te abençoe sempre!
    Continue participando.

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